sexta-feira, 12 de julho de 2013

DO LIXO AO LUXO


De facto, tenho visto muitas coisas em minha vida! Embora tenha nascido pobre, no subúrbio da cidade do Rio de Janeiro, tive ao longo destes 47 anos de existência, muitas experiências e possibilidades de viver e aprender sobre coisas e pessoas.

Posso até mesmo dizer com segurança que, para uma menina de onde vim, tive mesmo muita sorte, e com isso pude conhecer lugares, pessoas e, hoje até acredito, criaturas.

Pude ver e ouvir povos, costumes, muitas línguas e idiomas diferentes do meu. Sem dúvida, fiz viagens e estive em lugares que nunca teria imaginado no início de minha vida.

Mas, é engraçado que a vida sempre me surpreende e cada vez mais me mostra coisas que me saltam aos olhos e faz calar todos os outros sentidos para ouvir coisas que tanto me orgulham e me enchem de alegria, como me envergonham e me enchem de tristeza…

O que mais me chamou a atenção na vida, desde pequena, são os seres humanos como eu, assim gente, estes seres que vêm de criações diferentes, famílias diferentes, povos diferentes com sentimentos tão iguais, reacções diversas e emoções de todo o tipo: boas e ruins.
Desta maneira, tenho levado a minha vida a observar e a ver o meu semelhante como uma fonte inesgotável de possibilidades, belezas e loucuras.

Esta semana vi uma reportagem, que me saltou aos olhos, sobre uma cidade, na realidade, um lugar chamado Cateura, no Paraguai, onde existe um lixão e lá vivem cerca de 5000 catadores de lixo, onde metade da população é de crianças entre os 11 e 12 anos de idade, que vivem do lixo que catam: restos deixados de uma sociedade.
Mas, esta não é uma história que fala de lixo, mas de luxo. Sim, estas crianças com a ajuda de um homem, jovem maestro, hoje têm uma orquestra sinfónica formada por jovens e por instrumentos musicais, feitos do luxo. Isso sim, é a magia aqui! Um único homem com o seu conhecimento musical e a ajuda de um carpinteiro e das crianças fazem violinos, violão, violoncelos, instrumentos de sopro, tudo feito com restos de lata, escovas de cabelo, moedas, pregos e inspirações divinas!

E quando se vêem as crianças que antes só catavam lixo para comer e ter uma vida miserável, hoje tocam Beethoven, Vivaldi e até mesmo clássicos do popular brasileiro: Garota de Ipanema, do som de uma orquestra feita de latas e lixo… para mim, esta é a prova divina de que Deus existe e de que onde estão mais de um ser reunidos em Seu nome, Ele estará.

Foi mesmo emocionante ver o brilho nos olhos das crianças e adolescentes, enchendo de vida aquele lugar sujo e fétido, vendo o orgulho dos pais em que seus filhos saibam algo diferente deles e possam com certeza ter uma vida melhor no futuro.
Quanto a mim, fiquei cheia de esperança, invadida de uma paz, de que tudo pode ter jeito e que na realidade quando Deus disse: “deixai vir a Mim as criancinhas” também estava a dizer isso para os homens de boa vontade.

Por outro lado, esta experiência me fez lembrar de muitas coisas que já vi e já ouvi; como uma vez num jantar ouvir uma pessoa a me dizer que visitava a India para se lembrar da pobreza e daqueles que não têm o que comer, para se sensibilizar com uma realidade que não tinha em sua vida. Na época, eu era mais jovem e não reagi muito bem a este comentário.

Hoje, já estive com tantas pessoas que realmente não têm necessidades financeiras e podem até mesmo se dar ao luxo de dizer que são ricas, porém, estou sempre a ouvi-las angustiadas com a preocupação de não se ter o bastante.

Na realidade, hoje, aos meus 47 anos de idade, aprendi a não julgar as pessoas pelo que são ou pelo que fazem, pois sei que o sofrimento humano real é resultado do afastamento da própria essência e isso não há dinheiro que o compre.

Mais ainda, fico perplexa com a existência de pessoas que tendo muito dinheiro, iates, casas, carros importados, dinheiro no exterior, não conseguem sentir-se felizes e não produzem nada de interessante na própria vida, nem para os outros. E com aqueles que se deitam todos os dias em seus lençóis de seda e perfume francês sem se lembrarem que outros irmãos como eles morrem de fome ao relento, e mesmo assim gastam fortunas em terapias alternativas, esoterismos e em tudo o que a moda pode ditar para buscarem alguma paz interior, enquanto jovens e crianças tiram do lixo o luxo de Vivaldi e a beleza da vida clássica de ser apenas humano e nada mais.

Isso sim, me faz pensar!  


Sussuca Ferreira 10/07/2013 - 5:13 manhã

3 comentários:

Regina Coragem disse...

Lindo , emocionante, uma lição de vida...

.Q. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mariza Valgas disse...

Fantástico! Parabéns por teu trabalho, brilhante...!!!